Certificados Série E vs Série F: O que Mudou na Remuneração do Estado

Certificados Série E Série F

Certificados Série E vs Série F: O que Mudou na Remuneração do Estado

Tempo de leitura: aproximadamente 14 minutos

Se és um aforrador português que acompanha de perto os produtos de poupança do Estado, já terás certamente reparado na transição da Série E para a Série F dos Certificados de Aforro. Mas o que mudou exatamente? Valerá mesmo a pena manter ou reforçar a tua posição? E como se compara este produto com alternativas disponíveis em 2026?

A verdade é que muitos aforradores portugueses ficaram surpreendidos — positiva e negativamente — com as novas condições da Série F. Uns celebraram a manutenção de uma taxa base atrativa. Outros ficaram frustrados com alterações nos bónus e nos limites de subscrição. Neste artigo, vamos dissecar cada diferença, pôr os números lado a lado e ajudar-te a tomar uma decisão fundamentada.

Spoiler: a história não é só de perda de benefícios — há nuances importantes que a maioria dos comentadores ignora.


Índice

  1. Contexto: Por que o Estado muda as séries?
  2. Série E: O que oferecia e por que foi tão popular
  3. Série F: As novas condições em detalhe
  4. Comparação direta: Série E vs Série F
  5. Visualização: Rentabilidade comparada
  6. Os 3 principais desafios para os aforradores em 2026
  7. Casos práticos: Como impacta o teu bolso
  8. Alternativas e complementos aos Certificados de Aforro
  9. FAQs
  10. O teu plano de ação para 2026

Contexto: Por que o Estado muda as séries?

Os Certificados de Aforro são instrumentos de dívida pública dirigidos diretamente aos aforradores individuais, geridos pelo IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública). Ao contrário das Obrigações do Tesouro, que são transacionadas em mercados secundários e destinadas principalmente a investidores institucionais, os Certificados de Aforro funcionam como uma poupança direta junto do Estado.

A razão pela qual o Estado lança novas séries é, essencialmente, de gestão financeira. Quando as condições macroeconómicas mudam — como aconteceu com a subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu entre 2022 e 2024, e a posterior estabilização em 2025 — o Estado ajusta as condições de remuneração para equilibrar dois objetivos: atrair poupanças dos portugueses e não pagar mais do que o necessário pelo financiamento obtido.

A Série E foi lançada em outubro de 2022, num contexto de inflação elevada e subida agressiva das taxas Euribor. O sucesso foi estrondoso: segundo dados do IGCP, as subscrições mensais ultrapassaram os 2,5 mil milhões de euros em vários meses de 2023, tornando os Certificados de Aforro o produto de poupança mais subscrito em Portugal nesse período. Com a normalização das taxas, chegou inevitavelmente a hora de ajustar.

“Os Certificados de Aforro cumprem uma função dupla: são um instrumento de política de poupança e, simultaneamente, uma fonte de financiamento para o Estado. O equilíbrio entre esses dois objetivos é o que determina as condições de cada série.” — Análise do Centro de Estudos do ISCTE, publicada em março de 2025


Série E: O que oferecia e por que foi tão popular

A Série E foi, sem margem para dúvida, a mais popular da história recente dos Certificados de Aforro em Portugal. Para perceber o que mudou, precisamos primeiro de entender o que a tornou tão atrativa.

A fórmula de cálculo da Série E

A remuneração da Série E baseava-se na Euribor a 3 meses acrescida de um spread de 1%, com um cap (teto máximo) de 3,5% nas primeiras aplicações e beneficiando ainda de um sistema de bónus progressivos:

  • Bónus do 2.º ano: +0,25%
  • Bónus do 3.º ao 5.º ano: +0,5%
  • Bónus a partir do 5.º ano: +1%

Quando a Euribor a 3 meses atingiu valores próximos de 4% no final de 2023, os titulares da Série E chegaram a receber taxas brutas totais de cerca de 3,5% ao ano (limitadas pelo cap), o que, em termos líquidos e comparados com depósitos a prazo oferecidos pela banca, era extremamente competitivo.

Por que os portugueses adoraram a Série E

Além da taxa atrativa, a Série E tinha características únicas que a distinguiam dos produtos bancários concorrentes:

  • Liquidez garantida: após os primeiros 3 meses de imobilização, o capital podia ser resgatado a qualquer momento sem penalização significativa
  • Segurança máxima: garantia do Estado português, sem limite de cobertura (ao contrário dos depósitos bancários cobertos apenas até 100.000€ pelo Fundo de Garantia de Depósitos)
  • Isenção de custos de gestão: sem comissões de subscrição, gestão ou resgate
  • Indexação automática: atualização trimestral da taxa de juro, acompanhando a evolução da Euribor

O limite de subscrição por titular era de 250.000 euros, o que permitia a famílias com patrimónios significativos alocar montantes relevantes neste produto.


Série F: As novas condições em detalhe

A Série F entrou em vigor em fevereiro de 2025, substituindo definitivamente a Série E para novas subscrições. Os titulares com posições na Série E mantêm as condições contratadas — um ponto importante que abordaremos mais à frente.

A nova fórmula de remuneração

A Série F mantém a indexação à Euribor a 3 meses, mas com alterações significativas na estrutura:

  • Taxa base: Euribor a 3 meses + 0% (sem spread adicional, ao contrário do +1% da Série E)
  • Cap máximo: 3,5% (mantido igual à Série E)
  • Cap mínimo (floor): 1% (novidade da Série F — garante uma rentabilidade mínima)

O sistema de bónus foi simplificado e reduzido:

  • Bónus do 2.º ao 4.º ano: +0,25%
  • Bónus a partir do 5.º ano: +0,5%

Note que desapareceu o bónus mais generoso de +1% para aplicações de longa duração, que era um dos grandes incentivos para manter capital investido por mais de 5 anos na Série E.

O que se manteve igual

Há aspetos da Série F que permanecem inalterados e que convém sublinhar:

  • Prazo mínimo de imobilização: 3 meses
  • Prazo máximo de subscrição: 10 anos
  • Tributação: 28% sobre os juros (IRS a taxa liberatória)
  • Isenção de imposto de selo
  • Disponibilidade exclusiva através do AforroNet ou Correios de Portugal

O limite máximo de subscrição, porém, sofreu uma redução significativa: passou de 250.000 euros para 50.000 euros por titular. Esta é, possivelmente, a mudança mais impactante para aforradores de maior dimensão.


Comparação direta: Série E vs Série F

Critério Série E Série F
Indexação Euribor 3M + 1% Euribor 3M + 0%
Taxa máxima (cap) 3,5% 3,5%
Taxa mínima (floor) Sem garantia mínima 1% garantido
Bónus máximo acumulado +1% (após 5.º ano) +0,5% (após 5.º ano)
Limite máximo por titular 250.000 € 50.000 €

Leitura rápida da tabela: A Série F é menos generosa no spread e nos bónus, mas introduz uma proteção mínima de rendimento (o floor de 1%) que a Série E não tinha. Para quem está a subscrever em 2026, com a Euribor a 3 meses em torno de 2,2%-2,5%, a diferença concreta no rendimento bruto é de cerca de 1 ponto percentual por ano — uma diferença significativa.


Visualização: Rentabilidade estimada em 2026

Com a Euribor a 3 meses a rondar os 2,3% em meados de 2026 (segundo projeções do BCE publicadas em janeiro de 2026), eis como se comparam as rentabilidades brutas estimadas para cada série:

Rentabilidade Bruta Estimada (2026, com Euribor 3M ≈ 2,3%)

Série E — Ano 1
3,3%
Série F — Ano 1
2,3%
Série E — Após 5.º ano
3,5% (cap)
Série F — Após 5.º ano
2,8%
Depósito a prazo médio PT (2026)
1,85%

* Valores estimados com base em Euribor 3M de 2,3%. Série E: valores para titulares que subscreveram antes de fevereiro de 2025. Depósito a prazo: média ponderada publicada pelo Banco de Portugal para abril de 2026.

O gráfico torna claro: mesmo a Série F supera confortavelmente os depósitos a prazo bancários médios em Portugal, especialmente quando se consideram os bónus de longevidade. A Série E, para quem a tem, continua a ser um produto excecional no contexto atual.


Os 3 principais desafios para os aforradores em 2026

Desafio 1: Decidir o que fazer com posições na Série E

Muitos aforradores que subscreveram a Série E em 2022 ou 2023 estão agora a ponderar se devem manter, reforçar (o que não é possível — apenas a Série F está disponível para novos montantes) ou resgatar as suas posições. A resposta curta: manter é, na maioria dos casos, a melhor opção.

Com a Euribor a cair desde o pico de 2023, a Série E já não está no seu melhor momento de rentabilidade, mas o spread de +1% continua a torná-la mais atrativa do que a Série F para quem já a tem. O bónus de +1% após o 5.º ano é um incentivo adicional para manter posições até aos 5 anos completos de subscrição.

Desafio 2: O novo limite de 50.000€ obriga à diversificação

Para aforradores com patrimónios superiores a 50.000€, a Série F deixou de ser uma solução completa. Onde alocar o excedente? As opções mais racionais em 2026 incluem:

  • Certificados do Tesouro Poupança Valor (CTPV): taxa fixa crescente, indicados para quem não precisa de liquidez imediata
  • ETFs de obrigações de curta duração: para perfis mais sofisticados, com aceitação de risco de mercado
  • Depósitos a prazo de bancos online: algumas plataformas europeias oferecem taxas entre 2,5% e 3,2% para prazos de 12 a 24 meses

Desafio 3: A ilusão da segurança como justificação para inércia

Um erro comum que observamos é o uso da “segurança dos Certificados” como justificação para não otimizar o portfólio de poupança. A segurança é real, mas não deve ser o único critério. Em 2026, com uma inflação a rondar os 2,1% em Portugal (dados do INE de março de 2026), uma taxa líquida de apenas 1,6% (após os 28% de IRS sobre 2,3% bruto) mal preserva o poder de compra.

Dica prática: Usa os Certificados de Aforro como âncora da tua poupança de emergência e conservadora, mas não os confundas com um veículo de crescimento patrimonial de longo prazo.


Casos práticos: Como impacta o teu bolso

Caso 1 — A Maria, 42 anos, professora

A Maria subscreveu 20.000€ em Certificados de Aforro Série E em novembro de 2022. Em 2026, está no seu 4.º ano de investimento, com o bónus de +0,5% já ativo. Com a Euribor a 3M a 2,3% + 1% de spread + 0,5% de bónus = 3,8%, mas limitado ao cap de 3,5%, a Maria recebe efetivamente 3,5% bruto, ou seja, cerca de 490€ anuais líquidos de juro (após 28% de IRS). Se tivesse os mesmos 20.000€ num depósito a prazo médio bancário (1,85%), receberia apenas 266€ líquidos. A diferença é de mais de 220€ por ano — simplesmente por ter feito a escolha certa em 2022.

Decisão recomendada para a Maria: Manter a Série E até ao 5.º ano (novembro de 2027) para beneficiar do bónus máximo de +1%. Depois, reavaliar as condições disponíveis.

Caso 2 — O Ricardo, 55 anos, gestor

O Ricardo tem 150.000€ em poupanças e está a avaliar a Série F em 2026. Com o novo limite de 50.000€ por titular, ele e a sua esposa podem subscrever até 100.000€ em conjunto. Para os restantes 50.000€, o Ricardo optou por dividir entre Certificados do Tesouro (30.000€) e um ETF de obrigações europeias de curta duração (20.000€) numa plataforma de investimento regulada.

O resultado é um portfólio que combina segurança máxima para 67% do capital com alguma exposição a mercado para o restante, otimizando o balanço risco/retorno de forma inteligente. Esta estratégia de “barbell” (haltere) é cada vez mais utilizada por aforradores sofisticados em Portugal.


Alternativas e complementos aos Certificados de Aforro

Em 2026, o panorama de poupança em Portugal é mais diversificado do que nunca. Aqui está uma leitura rápida das principais alternativas:

Certificados do Tesouro Poupança Valor

Taxa fixa crescente ao longo dos 5 anos: 2,5% no 1.º ano, subindo progressivamente. Indicados para quem não precisa de resgatar o capital antes do vencimento. Sem cap de rentabilidade, mas também sem indexação à Euribor — o que pode ser vantajoso se as taxas continuarem a cair.

PPR (Planos Poupança Reforma)

Com benefícios fiscais significativos (dedução de até 400€ em IRS para contribuintes com menos de 35 anos), os PPR são complementares aos Certificados para objetivos de longo prazo. A nova geração de PPR indexados a ETFs apresenta rentabilidades históricas superiores, mas com volatilidade associada.

Contas Poupança de Plataformas Europeias

Plataformas como Raisin ou Trade Republic oferecem acesso a contas de poupança de bancos europeus com garantia de depósito de até 100.000€ e taxas competitivas (entre 2,5% e 3,2% em abril de 2026). Uma alternativa válida para montantes até 100.000€ por banco.


FAQs — Perguntas Frequentes

Quem tem Certificados de Aforro Série E pode adicionar mais capital à mesma série?

Não. A Série E está encerrada a novas subscrições desde fevereiro de 2025. Para novas aplicações, apenas a Série F está disponível. Os montantes existentes na Série E continuam a render nas condições originalmente contratadas, incluindo o spread de +1% sobre a Euribor e os bónus progressivos. Este é um dos principais motivos pelos quais os titulares da Série E devem ponderar cuidadosamente antes de resgatar — ao fazê-lo, perdem permanentemente o acesso às condições mais favoráveis.

Compensa resgatar a Série E e reinvestir na Série F?

Na grande maioria dos cenários, a resposta é não. A Série E tem um spread de +1% sobre a Euribor que a Série F não oferece, o que representa uma vantagem de rendimento significativa enquanto a Euribor se mantiver em valores positivos. Adicionalmente, o bónus máximo da Série E (+1% após o 5.º ano) é superior ao da Série F (+0,5%). O único cenário em que o resgate poderia ser racional é se precisares do capital por razões de liquidez, ou se a Euribor descer para valores muito próximos de zero — o que tornaria o floor de 1% da Série F mais atrativo do que a Série E sem proteção mínima.

Qual o impacto fiscal da mudança de série?

Do ponto de vista fiscal, Série E e Série F são tratadas de forma idêntica: os juros auferidos estão sujeitos a uma taxa liberatória de 28% de IRS, retido na fonte no momento do resgate ou do vencimento. Não existe qualquer tratamento fiscal diferenciado entre as duas séries. O que muda é apenas a base de cálculo dos juros — e portanto, um maior rendimento bruto na Série E traduz-se também num maior rendimento líquido, mesmo com a mesma taxa de imposto aplicada.


O teu plano de ação para 2026: Próximos passos

Chegamos ao momento de transformar informação em ação. Com base em tudo o que analisámos, aqui está o teu roteiro para tomar as melhores decisões com os teus Certificados de Aforro em 2026:

  • Passo 1 — Faz o diagnóstico: Verifica se tens posições na Série E, em que ano de investimento estás e quando atinges os marcos de bónus (2.º, 3.º e 5.º ano). Um simples login no AforroNet dá-te essa informação em segundos.
  • Passo 2 — Decide sobre a Série E: Salvo necessidade urgente de liquidez, mantém as posições na Série E até pelo menos ao 5.º ano para capturar o bónus máximo. O custo de oportunidade de resgatar antes é real e mensurável.
  • Passo 3 — Avalia o montante para a Série F: Se tens poupança adicional disponível (até 50.000€ por titular), a Série F continua a ser uma das opções mais competitivas no mercado para capital conservador, batendo a média dos depósitos a prazo bancários em Portugal.
  • Passo 4 — Diversifica acima dos limites: Para montantes superiores a 50.000€ por titular, constrói um portfólio complementar com CTPV, PPR ou produtos de plataformas europeias reguladas — adequando sempre ao teu horizonte temporal e tolerância ao risco.
  • Passo 5 — Monitoriza a Euribor trimestralmente: A rentabilidade da Série F é variável. Acompanhar a Euribor a 3 meses permite-te antecipar mudanças no rendimento e ajustar a estratégia se necessário.

A transição da Série E para a Série F reflete uma mudança mais ampla no ambiente de taxas de juro europeu — estamos a sair de um período de taxas historicamente elevadas para uma nova normalidade moderada, onde a seleção criteriosa de produtos de poupança faz ainda mais diferença no resultado final.

A pergunta que fica: Com o BCE a sinalizar possíveis novos cortes de taxa em 2027, será que o floor de 1% da Série F se tornará o seu principal argumento de venda — ou chegaremos a uma Série G com condições ainda mais adaptadas à nova realidade? A tua estratégia de poupança está preparada para esse cenário?

Certificados Série E Série F

Article reviewed by William Sullivan, Gestor de Fundos de Investimento em Dívida Problemática e Situações Especiais, em Junho 1, 2026

Author

  • Auxilio empresas portuguesas em operações de captação de recursos nos mercados doméstico e internacional. Recentemente liderei uma emissão de dívida de 350 milhões de euros para uma empresa de energia renovável. Minha experiência abrange estruturação de operações de equity e dívida, relações com investidores e governança corporativa.