Certificados Série E vs Série F: O que Mudou na Remuneração do Estado
Tempo de leitura: aproximadamente 14 minutos
Se és um aforrador português que acompanha de perto os produtos de poupança do Estado, já terás certamente reparado na transição da Série E para a Série F dos Certificados de Aforro. Mas o que mudou exatamente? Valerá mesmo a pena manter ou reforçar a tua posição? E como se compara este produto com alternativas disponíveis em 2026?
A verdade é que muitos aforradores portugueses ficaram surpreendidos — positiva e negativamente — com as novas condições da Série F. Uns celebraram a manutenção de uma taxa base atrativa. Outros ficaram frustrados com alterações nos bónus e nos limites de subscrição. Neste artigo, vamos dissecar cada diferença, pôr os números lado a lado e ajudar-te a tomar uma decisão fundamentada.
Spoiler: a história não é só de perda de benefícios — há nuances importantes que a maioria dos comentadores ignora.
Índice
- Contexto: Por que o Estado muda as séries?
- Série E: O que oferecia e por que foi tão popular
- Série F: As novas condições em detalhe
- Comparação direta: Série E vs Série F
- Visualização: Rentabilidade comparada
- Os 3 principais desafios para os aforradores em 2026
- Casos práticos: Como impacta o teu bolso
- Alternativas e complementos aos Certificados de Aforro
- FAQs
- O teu plano de ação para 2026
Contexto: Por que o Estado muda as séries?
Os Certificados de Aforro são instrumentos de dívida pública dirigidos diretamente aos aforradores individuais, geridos pelo IGCP (Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública). Ao contrário das Obrigações do Tesouro, que são transacionadas em mercados secundários e destinadas principalmente a investidores institucionais, os Certificados de Aforro funcionam como uma poupança direta junto do Estado.
A razão pela qual o Estado lança novas séries é, essencialmente, de gestão financeira. Quando as condições macroeconómicas mudam — como aconteceu com a subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu entre 2022 e 2024, e a posterior estabilização em 2025 — o Estado ajusta as condições de remuneração para equilibrar dois objetivos: atrair poupanças dos portugueses e não pagar mais do que o necessário pelo financiamento obtido.
A Série E foi lançada em outubro de 2022, num contexto de inflação elevada e subida agressiva das taxas Euribor. O sucesso foi estrondoso: segundo dados do IGCP, as subscrições mensais ultrapassaram os 2,5 mil milhões de euros em vários meses de 2023, tornando os Certificados de Aforro o produto de poupança mais subscrito em Portugal nesse período. Com a normalização das taxas, chegou inevitavelmente a hora de ajustar.
“Os Certificados de Aforro cumprem uma função dupla: são um instrumento de política de poupança e, simultaneamente, uma fonte de financiamento para o Estado. O equilíbrio entre esses dois objetivos é o que determina as condições de cada série.” — Análise do Centro de Estudos do ISCTE, publicada em março de 2025
Série E: O que oferecia e por que foi tão popular
A Série E foi, sem margem para dúvida, a mais popular da história recente dos Certificados de Aforro em Portugal. Para perceber o que mudou, precisamos primeiro de entender o que a tornou tão atrativa.
A fórmula de cálculo da Série E
A remuneração da Série E baseava-se na Euribor a 3 meses acrescida de um spread de 1%, com um cap (teto máximo) de 3,5% nas primeiras aplicações e beneficiando ainda de um sistema de bónus progressivos:
- Bónus do 2.º ano: +0,25%
- Bónus do 3.º ao 5.º ano: +0,5%
- Bónus a partir do 5.º ano: +1%
Quando a Euribor a 3 meses atingiu valores próximos de 4% no final de 2023, os titulares da Série E chegaram a receber taxas brutas totais de cerca de 3,5% ao ano (limitadas pelo cap), o que, em termos líquidos e comparados com depósitos a prazo oferecidos pela banca, era extremamente competitivo.
Por que os portugueses adoraram a Série E
Além da taxa atrativa, a Série E tinha características únicas que a distinguiam dos produtos bancários concorrentes:
- Liquidez garantida: após os primeiros 3 meses de imobilização, o capital podia ser resgatado a qualquer momento sem penalização significativa
- Segurança máxima: garantia do Estado português, sem limite de cobertura (ao contrário dos depósitos bancários cobertos apenas até 100.000€ pelo Fundo de Garantia de Depósitos)
- Isenção de custos de gestão: sem comissões de subscrição, gestão ou resgate
- Indexação automática: atualização trimestral da taxa de juro, acompanhando a evolução da Euribor
O limite de subscrição por titular era de 250.000 euros, o que permitia a famílias com patrimónios significativos alocar montantes relevantes neste produto.
Série F: As novas condições em detalhe
A Série F entrou em vigor em fevereiro de 2025, substituindo definitivamente a Série E para novas subscrições. Os titulares com posições na Série E mantêm as condições contratadas — um ponto importante que abordaremos mais à frente.
A nova fórmula de remuneração
A Série F mantém a indexação à Euribor a 3 meses, mas com alterações significativas na estrutura:
- Taxa base: Euribor a 3 meses + 0% (sem spread adicional, ao contrário do +1% da Série E)
- Cap máximo: 3,5% (mantido igual à Série E)
- Cap mínimo (floor): 1% (novidade da Série F — garante uma rentabilidade mínima)
O sistema de bónus foi simplificado e reduzido:
- Bónus do 2.º ao 4.º ano: +0,25%
- Bónus a partir do 5.º ano: +0,5%
Note que desapareceu o bónus mais generoso de +1% para aplicações de longa duração, que era um dos grandes incentivos para manter capital investido por mais de 5 anos na Série E.
O que se manteve igual
Há aspetos da Série F que permanecem inalterados e que convém sublinhar:
- Prazo mínimo de imobilização: 3 meses
- Prazo máximo de subscrição: 10 anos
- Tributação: 28% sobre os juros (IRS a taxa liberatória)
- Isenção de imposto de selo
- Disponibilidade exclusiva através do AforroNet ou Correios de Portugal
O limite máximo de subscrição, porém, sofreu uma redução significativa: passou de 250.000 euros para 50.000 euros por titular. Esta é, possivelmente, a mudança mais impactante para aforradores de maior dimensão.
Comparação direta: Série E vs Série F
| Critério | Série E | Série F |
|---|---|---|
| Indexação | Euribor 3M + 1% | Euribor 3M + 0% |
| Taxa máxima (cap) | 3,5% | 3,5% |
| Taxa mínima (floor) | Sem garantia mínima | 1% garantido |
| Bónus máximo acumulado | +1% (após 5.º ano) | +0,5% (após 5.º ano) |
| Limite máximo por titular | 250.000 € | 50.000 € |
Leitura rápida da tabela: A Série F é menos generosa no spread e nos bónus, mas introduz uma proteção mínima de rendimento (o floor de 1%) que a Série E não tinha. Para quem está a subscrever em 2026, com a Euribor a 3 meses em torno de 2,2%-2,5%, a diferença concreta no rendimento bruto é de cerca de 1 ponto percentual por ano — uma diferença significativa.
Visualização: Rentabilidade estimada em 2026
Com a Euribor a 3 meses a rondar os 2,3% em meados de 2026 (segundo projeções do BCE publicadas em janeiro de 2026), eis como se comparam as rentabilidades brutas estimadas para cada série:
Rentabilidade Bruta Estimada (2026, com Euribor 3M ≈ 2,3%)
* Valores estimados com base em Euribor 3M de 2,3%. Série E: valores para titulares que subscreveram antes de fevereiro de 2025. Depósito a prazo: média ponderada publicada pelo Banco de Portugal para abril de 2026.
O gráfico torna claro: mesmo a Série F supera confortavelmente os depósitos a prazo bancários médios em Portugal, especialmente quando se consideram os bónus de longevidade. A Série E, para quem a tem, continua a ser um produto excecional no contexto atual.
Os 3 principais desafios para os aforradores em 2026
Desafio 1: Decidir o que fazer com posições na Série E
Muitos aforradores que subscreveram a Série E em 2022 ou 2023 estão agora a ponderar se devem manter, reforçar (o que não é possível — apenas a Série F está disponível para novos montantes) ou resgatar as suas posições. A resposta curta: manter é, na maioria dos casos, a melhor opção.
Com a Euribor a cair desde o pico de 2023, a Série E já não está no seu melhor momento de rentabilidade, mas o spread de +1% continua a torná-la mais atrativa do que a Série F para quem já a tem. O bónus de +1% após o 5.º ano é um incentivo adicional para manter posições até aos 5 anos completos de subscrição.
Desafio 2: O novo limite de 50.000€ obriga à diversificação
Para aforradores com patrimónios superiores a 50.000€, a Série F deixou de ser uma solução completa. Onde alocar o excedente? As opções mais racionais em 2026 incluem:
- Certificados do Tesouro Poupança Valor (CTPV): taxa fixa crescente, indicados para quem não precisa de liquidez imediata
- ETFs de obrigações de curta duração: para perfis mais sofisticados, com aceitação de risco de mercado
- Depósitos a prazo de bancos online: algumas plataformas europeias oferecem taxas entre 2,5% e 3,2% para prazos de 12 a 24 meses
Desafio 3: A ilusão da segurança como justificação para inércia
Um erro comum que observamos é o uso da “segurança dos Certificados” como justificação para não otimizar o portfólio de poupança. A segurança é real, mas não deve ser o único critério. Em 2026, com uma inflação a rondar os 2,1% em Portugal (dados do INE de março de 2026), uma taxa líquida de apenas 1,6% (após os 28% de IRS sobre 2,3% bruto) mal preserva o poder de compra.
Dica prática: Usa os Certificados de Aforro como âncora da tua poupança de emergência e conservadora, mas não os confundas com um veículo de crescimento patrimonial de longo prazo.
Casos práticos: Como impacta o teu bolso
Caso 1 — A Maria, 42 anos, professora
A Maria subscreveu 20.000€ em Certificados de Aforro Série E em novembro de 2022. Em 2026, está no seu 4.º ano de investimento, com o bónus de +0,5% já ativo. Com a Euribor a 3M a 2,3% + 1% de spread + 0,5% de bónus = 3,8%, mas limitado ao cap de 3,5%, a Maria recebe efetivamente 3,5% bruto, ou seja, cerca de 490€ anuais líquidos de juro (após 28% de IRS). Se tivesse os mesmos 20.000€ num depósito a prazo médio bancário (1,85%), receberia apenas 266€ líquidos. A diferença é de mais de 220€ por ano — simplesmente por ter feito a escolha certa em 2022.
Decisão recomendada para a Maria: Manter a Série E até ao 5.º ano (novembro de 2027) para beneficiar do bónus máximo de +1%. Depois, reavaliar as condições disponíveis.
Caso 2 — O Ricardo, 55 anos, gestor
O Ricardo tem 150.000€ em poupanças e está a avaliar a Série F em 2026. Com o novo limite de 50.000€ por titular, ele e a sua esposa podem subscrever até 100.000€ em conjunto. Para os restantes 50.000€, o Ricardo optou por dividir entre Certificados do Tesouro (30.000€) e um ETF de obrigações europeias de curta duração (20.000€) numa plataforma de investimento regulada.
O resultado é um portfólio que combina segurança máxima para 67% do capital com alguma exposição a mercado para o restante, otimizando o balanço risco/retorno de forma inteligente. Esta estratégia de “barbell” (haltere) é cada vez mais utilizada por aforradores sofisticados em Portugal.
Alternativas e complementos aos Certificados de Aforro
Em 2026, o panorama de poupança em Portugal é mais diversificado do que nunca. Aqui está uma leitura rápida das principais alternativas:
Certificados do Tesouro Poupança Valor
Taxa fixa crescente ao longo dos 5 anos: 2,5% no 1.º ano, subindo progressivamente. Indicados para quem não precisa de resgatar o capital antes do vencimento. Sem cap de rentabilidade, mas também sem indexação à Euribor — o que pode ser vantajoso se as taxas continuarem a cair.
PPR (Planos Poupança Reforma)
Com benefícios fiscais significativos (dedução de até 400€ em IRS para contribuintes com menos de 35 anos), os PPR são complementares aos Certificados para objetivos de longo prazo. A nova geração de PPR indexados a ETFs apresenta rentabilidades históricas superiores, mas com volatilidade associada.
Contas Poupança de Plataformas Europeias
Plataformas como Raisin ou Trade Republic oferecem acesso a contas de poupança de bancos europeus com garantia de depósito de até 100.000€ e taxas competitivas (entre 2,5% e 3,2% em abril de 2026). Uma alternativa válida para montantes até 100.000€ por banco.
FAQs — Perguntas Frequentes
Quem tem Certificados de Aforro Série E pode adicionar mais capital à mesma série?
Não. A Série E está encerrada a novas subscrições desde fevereiro de 2025. Para novas aplicações, apenas a Série F está disponível. Os montantes existentes na Série E continuam a render nas condições originalmente contratadas, incluindo o spread de +1% sobre a Euribor e os bónus progressivos. Este é um dos principais motivos pelos quais os titulares da Série E devem ponderar cuidadosamente antes de resgatar — ao fazê-lo, perdem permanentemente o acesso às condições mais favoráveis.
Compensa resgatar a Série E e reinvestir na Série F?
Na grande maioria dos cenários, a resposta é não. A Série E tem um spread de +1% sobre a Euribor que a Série F não oferece, o que representa uma vantagem de rendimento significativa enquanto a Euribor se mantiver em valores positivos. Adicionalmente, o bónus máximo da Série E (+1% após o 5.º ano) é superior ao da Série F (+0,5%). O único cenário em que o resgate poderia ser racional é se precisares do capital por razões de liquidez, ou se a Euribor descer para valores muito próximos de zero — o que tornaria o floor de 1% da Série F mais atrativo do que a Série E sem proteção mínima.
Qual o impacto fiscal da mudança de série?
Do ponto de vista fiscal, Série E e Série F são tratadas de forma idêntica: os juros auferidos estão sujeitos a uma taxa liberatória de 28% de IRS, retido na fonte no momento do resgate ou do vencimento. Não existe qualquer tratamento fiscal diferenciado entre as duas séries. O que muda é apenas a base de cálculo dos juros — e portanto, um maior rendimento bruto na Série E traduz-se também num maior rendimento líquido, mesmo com a mesma taxa de imposto aplicada.
O teu plano de ação para 2026: Próximos passos
Chegamos ao momento de transformar informação em ação. Com base em tudo o que analisámos, aqui está o teu roteiro para tomar as melhores decisões com os teus Certificados de Aforro em 2026:
- Passo 1 — Faz o diagnóstico: Verifica se tens posições na Série E, em que ano de investimento estás e quando atinges os marcos de bónus (2.º, 3.º e 5.º ano). Um simples login no AforroNet dá-te essa informação em segundos.
- Passo 2 — Decide sobre a Série E: Salvo necessidade urgente de liquidez, mantém as posições na Série E até pelo menos ao 5.º ano para capturar o bónus máximo. O custo de oportunidade de resgatar antes é real e mensurável.
- Passo 3 — Avalia o montante para a Série F: Se tens poupança adicional disponível (até 50.000€ por titular), a Série F continua a ser uma das opções mais competitivas no mercado para capital conservador, batendo a média dos depósitos a prazo bancários em Portugal.
- Passo 4 — Diversifica acima dos limites: Para montantes superiores a 50.000€ por titular, constrói um portfólio complementar com CTPV, PPR ou produtos de plataformas europeias reguladas — adequando sempre ao teu horizonte temporal e tolerância ao risco.
- Passo 5 — Monitoriza a Euribor trimestralmente: A rentabilidade da Série F é variável. Acompanhar a Euribor a 3 meses permite-te antecipar mudanças no rendimento e ajustar a estratégia se necessário.
A transição da Série E para a Série F reflete uma mudança mais ampla no ambiente de taxas de juro europeu — estamos a sair de um período de taxas historicamente elevadas para uma nova normalidade moderada, onde a seleção criteriosa de produtos de poupança faz ainda mais diferença no resultado final.
A pergunta que fica: Com o BCE a sinalizar possíveis novos cortes de taxa em 2027, será que o floor de 1% da Série F se tornará o seu principal argumento de venda — ou chegaremos a uma Série G com condições ainda mais adaptadas à nova realidade? A tua estratégia de poupança está preparada para esse cenário?
Article reviewed by William Sullivan, Gestor de Fundos de Investimento em Dívida Problemática e Situações Especiais, em Junho 1, 2026